
Uma hidrelétrica em processo de
tombamento é o que restou de
mais representativo

Bonde na Ataliba Leonel
O sucesso da cafeicultura no início do
século passado garantiu a Piraju
significativa projeção na política, na
área social e na economia. Teve
representantes de renome, libertou seus
escravos quatro meses antes da Lei Áurea
e conseguiu os mais modernos
melhoramentos urbanos da época. Luz
elétrica, telefone, água encanada,
sistema de esgoto, implantou antes do
que a maioria dos grandes centros,
inclusive capitais. Status especial lhe
conferia o bonde elétrico. Uma usina
(Boa Vista), que chegou a gerar 10% da
eletricidade produzida por hidrelétricas
no País, foi construída especialmente
para alimentar seus motores. E era um
município de apenas 4.000 habitantes, o
primeiro do País a contar com esse
serviço também em área rural.

Bonde em Fazenda
Em 1911, o vereador Ataliba Leonel
sugeriu a instalação de bondes para dar
acesso ao ramal da “Estrada de Ferro
Sorocabana” (Piraju a Manduri),
implantado cinco anos antes, mas que
ficava a dois quilômetros do centro da
cidade. O ramal e sua estação (esta
projetada por Ramos de Azevedo, o mais
importante arquiteto da época) haviam
sido construídos e doados ao Estado por
cafeicultores da região.

Bonde na Ataliba Leonel
A linha do bonde tinha 26 quilômetros e
chegava à vizinha Sarutaiá, atravessando
produtivas fazendas de café. Com o
aumento da demanda, cogitou-se estender
os trilhos até Carlópolis, no Paraná.
Este seria o primeiro trem elétrico a
ligar dois estados brasileiros. No
entanto, a opção foi instalar uma
hidrelétrica na cidade. Em 1936, a ponte
metálica por onde passavam os bondes foi
coberta pelas águas da represa.

Bonde na Ponte

Bonde na oficina
Empreendimento arrojado e de vida
curta
Uma firma francesa instalou a linha
férrea, empresa paulista representante
da alemã Siemens-Schuckertwerke montou a
usina e os carros foram importados dos
Estados Unidos.
O "Tramway Electrico Municipal de
Piraju" começou a funcionar em primeiro
de agosto de 1915. Depois de 15 dias,
veio a inauguração, evento prestigiado
por centenas de populares e importantes
autoridades. O carro 101, repleto de
convidados, gastou uma hora para chegar
à “fazenda Santa Maria”, conta um
morador.

Bonde Municipal
No início dos anos 20, circulavam três
luxuosos carros motorizados para
passageiros, três exclusivos para
cargas, um especial para suínos, além de
vagões rebocáveis para passageiros e
cargas. A manutenção dos veículos era
feita numa bem equipada oficina, onde
trabalhavam 30 operários. Havia ainda um
terminal de cargas, na cidade.
Em 1921, a empresa foi cedida a um
industrial e, em 1925, vendida pelo
poder público para a Companhia Luz e
Força “Santa Cruz”, agora sob o controle
da CPFL – Companhia Paulista de Força e
Luz. A “Santa Cruz” melhorou o
atendimento aos clientes, no entanto,
sua prioridade era a geração de energia,
setor atualmente explorado por empresa
do Grupo Votorantin.
A circulação dos bondes foi interrompida
em abril de 1931. A empresa foi
insistentemente cobrada pela Câmara
Municipal para reativar o serviço. Como
compensação, a partir de 1936 e durante
cinco anos, doou a energia para os
serviços de abastecimento de água e de
iluminação pública da cidade.

Usina Boa Vista
A crise da cafeicultura, a construção de
melhores rodovias e o surgimento de
veículos rodoviários, mais versáteis,
haviam reduzido o interesse pelo uso do
bonde (freqüência irrisória, como
argumentava a empresa na negociação com
a Prefeitura).

Usina Boa Vista - operador
Apesar de interrompido o serviço, a
edição de abril de 1937 do “Guia Levi”
ainda registrava o quadro de horários do
bonde entre a estação e a cidade de
Piraju.
A suspensão definitiva, no entanto, só
foi autorizada pela lei municipal nº 7,
assinada em 2 de agosto de 1937, pelo
prefeito Joaquim de Almeida.
O “carro número 9” foi vendido para São
Carlos e outros carros e equipamentos,
para a cidade de Votorantim.
O ramal ferroviário e a estação foram
desativados em 1966 e, em 1998,
retornaram ao patrimônio municipal,
conforme lei estadual nº 10.091. A
estação, hoje tombada pelo município
como Marco Regional da Memória do Café,
tem processo de restauro pleiteado junto
ao Ministério da Cultura.
O galpão da oficina dos bondes cedeu
lugar a uma agência de veículos e
atualmente abriga uma academia de
ginástica. Onde ficava o terminal de
cargas está a estação rodoviária da
cidade.

Usina Boa Vista - fachada
Usina histórica ainda funciona
A Usina Boa Vista é o que restou de mais
representativo dessa época. Funciona
regularmente e gera 800 kW. É pouco
expressiva sua participação no
abastecimento da região. No entanto, é
uma obra que impressiona pelo estado de
conservação, pela beleza do local e,
principalmente, por sua importância
histórica. É franqueada à visitação e
está em processo de tombamento junto ao
CONDEPHAAT.
Modernamente, várias tentativas foram
feitas para trazer de volta esse tipo de
transporte, mesmo que a título
simbólico.
Em 2001, o prefeito Mauricio Pinterich
chegou a negociar a importação de dois
bondes do Paraguai, onde o serviço foi
abolido em 1980. O restauro seria feito
pela Associação de Preservação
Ferroviária de Bondes (APFB).
No ano seguinte, negociou a recuperação
de um pequeno trecho do ramal
ferroviário até um horto florestal
próximo da cidade. Seria “a volta da
Maria Fumaça”.
Ambas as tentativas fracassaram, a
primeira, por problemas burocráticos e a
segunda, por falta de recursos.
Não se tem notícia de outras iniciativas
visando a preservar esse episódio da
história da região. |