Sem foco

ARTIGO - RUBENS RODRIGUES DA SILVA

Eu estava sentado na sala da rodoviária a espera de um filho que chegaria de viagem, quando percebi um grande rebuliço. Era um senhor aflito, que dizia: "Estava aqui, tenho certeza, ainda tem de estar por aqui". A mulher dele já não tinha esperança de encontrar o que o marido havia perdido, mas ele estava inconformado e não pretendia desistir: "Não posso viajar sem eles, não posso". Eles quem? Documentos? Filhos? Era coisa séria, sem dúvida. O homem suava, passava a mão na nuca e fiscalizava todos os assentos, um a um, olhando bem de perto, franzindo o olho para ajustar o foco.

Até que um menino foi até o casal com um objeto catado no chão e perguntou se era aquilo que procurava. Nunca vi êxtase igual: "Graças a Deus, meus óculos". O homem passava por cima da perna das outras pessoas, levantava bolsas, pacotes, parecia um cão farejador. Eu achei um exagero, pois se tivesse perdido um filho, vá lá, mas tanto alvoroço e gritaria por um par de óculos? Isso foi há muitos anos, eu ainda enxergava feito uma águia, não tinha como entender. Já havia escutado comentários sobre o efeito que a entrada nos anos 40 exerce sobre os olhos. Diziam que era tudo muito rápido: num dia via-se o mundo em alta definição, no outro dia embaçado. Eu não acreditava muito nisso, mas foi exatamente o que aconteceu comigo.

Uma visitinha ao oftalmologista e minha sorte estava lançada: adicionaria ao meu visual um belo par de lentes. Só para leitura, tentou me consolar o médico. Pensei: tudo bem. Apenas para ler um livro, uma revista, um jornal — uso doméstico, nem preciso carregar comigo. Até que chegou o dia de renovar a minha CNH. Naquela salinha escura fiquei perdido, só enxerguei as primeiras letras mais graúdas, depois tive um apagão. O médico perguntou: cadê os óculos? Não uso óculos, respondi e com um sorriso sarcástico, ele disse: Agora vai usar, e para sempre.

A verdade é que até quem não gosta de ler, lê a toda hora: bulas, rótulos, placas de trânsito, etiquetas, cheques, mapas, regulamentos, cardápios, mensagens de celular. Óculos só para ler significa no mínimo 16 horas por dia. Dia desses precidei dos meus óculos e não os encontrei onde sempre costumam estar. Procurei aqui, ali e nada. Lembrei-me do homem da rodoviária, que quase teve um piripaque diante da possibilidade de viajar sem seus óculos. Eu não estava embarcando para lugar algum, queria apenas encontrar um número de telefone na lista, e efoi então que percebi a falta que ele me faria caso eu não o encontrasse. Mas o encontrei. Eu cima do meu nariz.